27 de dez de 2016

Os livros do ano '16

Na minha cabeça inocente, achei que era impossível bater os 52 livros lidos em 2015. Então veio meio ano de desemprego e esse número virou pó. Na data de publicação deste post, contabilizei 87 lidos, número que pode aumentar até o dia 31. É livro pra caralho, não sei como consegui isso tudo.

Enfim, vamos conhecer os donos do pódio deste ano:

2016
3º lugar: A guerra dos tronos, George R. R. Martin


Demorei para começar a ler a obra do Martin. Deixei passar o burburinho, deixei passar anos com a série televisiva no ar. Tudo porque já sabia que ia gostar muito. O livro tem todos os elementos que me prendem em uma história de fantasia. Também tem uma forte camada política, outro tema que me interessa bastante. É um belo começo para uma série que tem me agradado bastante.

2º lugar: Pequenos deuses, Terry Pratchett


Já tinha lido alguns livros da série Discworld há alguns anos e me apaixonado. Não continuei por um motivo simples: os livros não estão mais disponíveis no Brasil. Pequenos deuses é o retorno das traduções daquele que considero um dos maiores nomes da literatura de humor. A história do deus Om é um dos maiores exemplos do quão genial ele pode ser, com uma crítica mordaz à religião, às instituições e às pessoas.

1º lugar: O sol é para todos, Harper Lee


Quando terminei a última página de O sol é para todos, já sabia que ele estaria no meu top 3. O tempo só me confirmou aquilo que já sabia desde janeiro: foi a melhor leitura do ano. A história da pequena Scout é uma aula de empatia, com ensinamentos válidos até os dias de hoje. É uma história de amor, compaixão e de como lidar com as diferenças. Um puta livro que devia ser leitura obrigatória para todos os adolescentes do mundo inteiro.


Ranking dos últimos anos
2011: 3º - Desventuras em série, Lemony Snicket || 2º - Os três mosqueteiros, Alexandre Dumas || 1º - Peter Pan, J. M. Barrie
2012: 3º - A invenção de Hugo Cabret, Brian Selznick || 2º - Jogador nº 1, Ernest Cline || 1º - A torre negra, Stephen King
2013: 3º - A dança da morte, Stephen King || 2º - O encontro marcado, Fernando Sabino || 1º -Daytripper, Fábio Moon e Gabriel Bá
2014: 3º - Mrs. Dalloway, Virginia Woolf || 2º - Lolita, Vladimir Nabokov || 1º - Sandman, Neil Gaiman
2015: 3º - O velho e o mar, Ernest Hemingway || 2º - Febre de bola, Nick Hornby || 1º - O senhor das moscas, William Golding


Livros lidos em 2016
(As datas são relativas ao término da leitura. Ao clicar nos títulos, você vai direto para a crítica no canal)
07/01: O sol é para todos, Harper Lee
12/01: Escuridão total, sem estrelas, Stephen King
21/01: O torreão, Jennifer Egan
28/01: As aventuras de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
29/01: Tempos extremos, Míriam Leitão
30/01: Bonsai, Alejandro Zambra
02/02: Rumah, Bruno Flores
14/02: O salmão da dúvida, Douglas Adams
17/02: As memórias de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
22/02: A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón
23/03: Sentimentos à flor da pele, Org. Vilto Reis e Anna Schermak
03/03: O jogo do anjo, Carlos Ruiz Zafón
07/03: O prisioneiro do céu, Carlos Ruiz Zafón
09/03: Eu fico loko, Christian Figueiredo
09/03: Eu fico loko 2, Christian Figueiredo
14/03: Muito mais que 5inco minutos, Kéfera Buchmann
25/03: O bicho-da-seda, Robert Galbraith
28/03: A volta de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
02/04: Jovem o suficiente, Felipe Gaúcho
08/04: Pequenos deuses, Terry Pratchett
13/04: O último adeus de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
02/05: Insônia, Stephen King
18/05: Guerra dos tronos, George R. R. Martin
20/05: Difícil explicar, João Ricardo Lempek
27/05: Histórias de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
05/06: Guia politicamente incorreto do futebol, Jones Rossi e Leonardo Mendes Júnior
05/06: Um estudo em vermelho, Arthur Conan Doyle
14/06: Meus documentos, Alejandro Zambra
16/06: Formas de voltar para casa, Alejandro Zambra
17/06: A vida privada das árvores, Alejandro Zambra
28/06: A fúria dos reis, George R. R. Martin
03/07: Joyland, Stephen King
18/07: Trainspotting, Irvine Welsh
19/07: O príncipe, Nicolau Maquiavel
26/07: A menina que roubava livros, Mark Zusak
27/07: Memórias do subsolo, Fiódor Dostoiévski
29/07: O signo dos quatro, Arthur Conan Doyle
05/08: Harry Potter and the cursed child, Jack Thorne/J. K. Rowling
09/08: O cão dos Baskerville, Arthur Conan Doyle
04/09: Tá todo mundo mal, Jout Jout
11/09: O vale do medo, Arthur Conan Doyle
14/09: Stephen King: Coração assombrado, Lisa Rogak
18/09: Matilda, Roald Dahl
20/09: As bruxas, Roald Dahl
26/09: A vida como ela é..., Nelson Rodrigues
30/09: Antologia da literatura fantástica, Bioy Casares, Jorge Luís Borges e Silvina Ocampo
04/10: Não faz sentido, Felipe Neto
06/10: Pc Siqueira está morto, Alexandre Matias e Pc Siqueira
08/10: Clímax, Chuck Palahniuk
12/10: O oceano no fim do caminho, Neil Gaiman
19/10: Sobre a escrita, Stephen King
20/10: Ferreiro de bosque grande, J. R. R. Tolkien
24/10: Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida
30/10: Para cada infinito, Victor Almeida
30/10: Antes do agora, Gleice Couto
03/11: Marina, Carlos Ruiz Zafón
10/11: A violoncelista, Michael Krüeger
20/11: Árvore e folha, J. R. R. Tolkien
27/11: Admirável mundo novo, Adous Huxley
01/12: Bienvenido: Um passeio pelos quadrinhos argentinos, Paulo Ramos
03/12: O menino no alto da montanha, John Boyne
14/12: O cemitério, Stephen King

Série "BH de cada um"
30/03: Lagoinha, Wander Piroli
13/04: Mercado Central, Fernando Brant
27/04: Independência, Jairo Anatólio Lima
09/05: Rua da Bahia, José Bento Teixeira de Salles
19/05: Fafich, Clara Arreguy
23/06: Parque Municipal, Ronaldo Guimarães
30/06: Praça Sete, Ângelo Oswaldo Santos
27/07: Livraria Amadeu, João Antônio de Paula
02/08: Sagrada Família, Manoel Lobato
17/08: Pampulha, Flávio Carsalade
19/08: Cine Pathé, Celina Albano
17/08: Pampulha, Flávio Carsalade
19/08: Cine Pathé, Celina Albano
29/08: Caiçara, Jorge Fernando dos Santos
21/09: Carmo, Alberto Villas
23/09: Lourdes, Lucia Helena Monteiro Machado
27/09: Colégio Sacré Couer de Marie, Marilene Guzella Martins Lemos
08/10: Carlos Prates, Humberto Pereira
26/10: Morro do Papagaio, Márcia Cruz
28/10: Maletta, Paulinho Assunção
10/11: Montanhez, Márcio Rubens Paiva
15/12: Santa Tereza, Libério Neves
16/12: Serra do Curral, Luís Giffoni
17/12: Serra, Nereide Beirão
18/12: Padre Eustáquio, Jeferson de Andrade

26 de dez de 2016

Os filmes do ano '16

Para manter as tradições deste blog, começam hoje as retrospectivas e listas de melhores do ano.

O primeiro dia é dedicado aos filmes. Minha meta de ver pelo menos um por semana vai muito bem, obrigado. Quando escrevi este post, já tinha assistido a 77. Aliás, o projeto 5/década me possibilitou dar uma volta completa pela história do cinema e foi uma experiência única! Pretendo repetir em breve.

Antes de começar a lista deste ano, acho bom deixar uma coisa clara: este ranking é pessoal, com filmes que assisti este ano e curti muito. Ou seja, nem todos foram lançados em 2016. Veja os vencedores dos anos passados:

2010: Empate entre Toy Story 3 e Onde vivem os monstros
2011ABC do amor
2012O ano em que meus pais saíram de férias
2013: 3º: As vantagens de ser invisível / 2º: Trilogia "Before..." / 1º: Princesa Mononoke
2014: 3º: O gigante de ferro / 2º: Taxi Driver / 1º: Réquiem para um sonho
2015: 3º: Whiplash / 2º: Ela / 1º: Divertida Mente


2016
O 5/década me fez assistir a tantos filmes fodas que montar o ranking deste ano foi quase impossível. Tinha certeza sobre quem seria o 1º colocado, mas as outras posições poderiam ser ocupadas por qualquer um. Como deixar de fora Doutor Fantástico, A primeira noite de um homem ou A noite dos mortos vivos? E olha que isso foi só o saldo de janeiro.

O tour pela história do cinema passou pelos anos 1960 e chegou até 1900. Obras essenciais para a formação, como Viagem à lua e O grande roubo de trem. Grandes clássicos, como Lawrence da ArábiaBen-HurOs sete samuraisE o vento levouAs vinhas da ira e Metropolis. O cinema em sua essência mais pura, como os três filmes do Chaplin: O garotoTempos modernos e Luzes da cidade.

Foram tantos filmes do Hitchcock que foi até difícil escolher os favoritos. Deixei Um corpo que cai, Disque M para matar, Os pássaros e Rebecca de fora, por exemplo. Passei por trilogias fodas como a das Cores (A liberdade é azul, A igualdade é branca e A fraternidade é vermelha) e a da Vingança (Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança). Porém nada chegou perto do que Sergio Leone construiu na trilogia do dólar (Por um punhado de dólares, Por uns dólares a mais e Três homens em conflito).



Fui ao cinema apenas cinco vezes este ano, mas saí satisfeito em todas elas. Peanuts renovou meu amor pela turma do Charlie Brown e foi uma baita apresentação dos personagens para as crianças. A sessão de O menino e o mundo me deu a sensação de ter visto algo maravilhoso. Procurando Dory não é tão incrível quanto o antecessor, mas faz bem o papel de divertir. O roubo dos planos da construção da Estrela da Morte ganharam contornos épicos em Rogue One. E o melhor de todos foi Animais fantásticos e onde habitam, que matou minha saudade do universo de Harry Potter e deixou aquele gostinho de quero mais.

Mas para entrar no meu ranking, o filme precisa mexer comigo de alguma forma. Spotlight renovou minha fé no jornalismo e me deixou triste pelo seu estado atual. Fantasia sempre me mostra o quão megalomaníaco Walt Disney foi. Zootopia levanta temas tão importantes que mereceu todo destaque recebido. Nunca me senti tão burro quanto assistindo a A grande aposta. Quando mergulhei no western, encontrei o ouro em Bravura Indômita e Era uma vez no oeste. Os efeitos da guerra no psicológico dos combatentes quase me fez considerar Os melhores anos de nossas vidas. O pódio esteve próximo mesmo é de Os reis do verão, um daqueles filmes simples e que ganham completamente meu coração pela história de amizade contada.


Dito isso, vamos à lista de 2016.

3º lugar
Assistir a filmes do Hitchcock e não colocá-los na lista de melhores do ano é uma heresia. Escolhi dois para compor esse pódio: Festim diabólico e Janela indiscreta. Eles têm uma semelhança incrível: o espaço físico limitado para contar a história. Se no primeiro foi simulado um enorme plano sequência dentro de um apartamento, no segundo temos um personagem preso na cadeira de rodas e toda uma vizinhança para observar.

A tensão é criada nos mínimos detalhes. A fala de um dos personagens, a atitude do outro. O tédio provocado pelo ferimento na perna. A paranoia constante que só contribui para que os dois sejam maravilhosos, cada um a sua maneira.



2º lugar
Tenho um fraco por histórias que envolvem jornalismo. Apesar dos altos e baixos (com ênfase nos baixos) momentos que a profissão vive, é o que escolhi para fazer da vida e sou apaixonado por isso. Quando o cinema decide contar uma boa história sobre a profissão, é fácil eu me apaixonar na hora. Foi o que aconteceu com Todos os homens do presidente.

Da mesma forma que Spotlight mostrou a dificuldade de apuração em um caso espinhento, aqui temos o o famoso caso Watergateum, um escândalo que envolveu o governo dos Estados Unidos e levou à queda do Nixon. Um tempo pré-internet, em que os repórteres precisavam estar nas ruas atrás da notícia. Com uma história tão incrível que precisava ser checada, rechecada e checada mais uma vez. As dificuldades e prazeres da profissão estão todos ali, de forma espetacular. Um puta filme sobre um dos maiores casos jornalísticos da história.



1º lugar
Esta era a minha única certeza absoluta na lista. Quando assisti 12 homens e uma sentença, fiquei com a sensação não de ter visto o melhor filme do ano, mas sim um dos melhores da minha vida. Não consigo precisar para vocês o que mais me agradou ali. Os personagens são interessantes, o roteiro é muito bem amarrado e as atuações são incríveis. Mas não é isso o principal. É o conjunto que me ganha.

Quando os 12 homens do júri se reúnem para decidir se o réu é culpado ou não, passamos a acompanhar a angústia de cada um deles. As convicções vão caindo uma por uma. As dúvidas são plantadas na cabeça de todos. Tudo sem precisar sair de dentro de uma sala. É genial.



Todos os filmes assistidos
04/01: Straight Outta Compton - A história do N.W.A. (2015)
14/01: Snoopy & Charlie Brown - Peanuts, o filme (2015)
19/01: O sol é para todos (1962)
20/01: A primeira noite de um homem (1967)
20/01: A noite dos mortos-vivos (1968)
22/01: Dr Fantástico (ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba) (1964)
25/01: Easy Riders - Sem destino (1969)
01/02: O bebê de Rosemary (1968)
03/02: Lawrence da Arábia (1962)
05/02: Os reis do verão (2013)
13/02: 12 homens e uma sentença (1957)
22/02: Juventude transviada (1955)
24/02: O menino e o mundo (2015)
28/02: Ben-Hur (1959)
28/02: Os sete samurais (1954)
01/03: Sindicato de ladrões (1954)
01/03: Um corpo que cai (1958)
15/04: Segurando as pontas (2008)
19/04: Gilda (1946)
20/04: Peixe grande e suas histórias maravilhosas (2003)
21/04: O falcão maltês / Relíquias macabras (1941)
22/04: Festim diabólico (1948)
22/04: Os melhores anos de nossas vidas (1946)
23/04: As vinhas da ira (1940)
23/04: Fantasia (1940)
01/05: O nevoeiro (2007)
18/06: Luzes da cidade (1931)
18/06: Tempos modernos (1936)
18/06: Dracula (1931)
27/06: Aconteceu naquela noite (1934)
28/06: E o vento levou... (1939)
29/06: M, o vampiro de Dusseldorf (1931)
01/07: Amizades improváveis (2016)
07/07: O bom dinossauro (2015)
07/07: Zootopia (2016)
08/07: Procurando Dory (2016)
09/07: Metropolis (1927)
18/08: Um cão andaluz (1929)
18/08: Asas (1927)
18/08: O cantor de jazz (1927)
19/08: Nosferatu (1922)
19/08: O garoto (1921)
19/08: Viagem à lua (1902)
19/08: O grande roubo do trem (1903)
20/08: O gabinete do doutor Caligari (1920)
20/08: Lírio partido (1919)
20/08: 20.000 léguas submarinas (1916)
21/08: A liberdade é azul (1993)
22/08: A igualdade é branca (1994)
23/08: A fraternidade é vermelha (1994)
26/08: Mr. Vingança (2002)
26/08: Oldboy (2003)
27/08: Lady Vingança (2005)
01/09: Por um punhado de dólares (1964)
02/09: Trainspotting - Sem limites (1996)
04/09: Por uns dólares a mais (1965)
11/09: Três homens em conflito (1966)
12/09: A grande aposta (2015)
14/09: Rebecca, a mulher inesquecível (1940)
14/09: Interlúdio (1946)
15/09: Janela indiscreta (1954)
16/09: Disque M para matar (1954)
16/09: Intriga internacional (1959)
17/09: Os pássaros (1963)
30/09: Todos os homens do presidente (1976)
01/10: Spotlight: Segredos Revelados (2015)
06/11: Ele está de volta (2015)
22/11: Animais fantásticos e onde habitam (2016)
05/12: Rastros de ódio (1956)
09/12: Sete homens e um destino (1960)
10/12: Bravura indômita (1969)
11/12: Era uma vez no oeste (1968)
11/12: Bravura indômita (2010)
16/12: Rogue One (2016)
17/12: O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (2007)
17/12: Os imperdoáveis (1992)
18/12: Pom Poko: A grande batalha dos guaxinins (1994)

24 de dez de 2016

Carta de um Frango para o Papai Noel - '16

Querido Papai Noel,

Muito obrigado pelo Playstation 4 do último Natal. Foi o primeiro presente decente após anos de cartinhas enviadas em vão. Só ameaçando sua "boa" imagem pro senhor tomar uma atitude. Devia ter feito isso antes. E nem precisei falar das fotos de uma certa orgia com duendes. Aliás, fica o aviso: sei de coisas bem piores do que a orgia, seu velho-gordo-pervertido.

Como chegamos a um acordo, trate de passar aqui amanhã e deixar meu presente embaixo do poleiro. Caso contrário, aperto o botão "enviar" de um e-mail cheio de fotos comprometedoras. E também não vou fazer lista de presentes, quero ser surpreendido. Se vier com um aquecedor de bicos ou uma panela de barro, o e-mail vai ser enviado do mesmo jeito. Use a imaginação. Combinado? Combinado.

Enfim, a carta deste ano não é pra pedir nada. Nem tô no clima de Natal. Queria só conversar com alguém e nossa relação já atingiu esse grau de intimidade. Preciso te contar umas coisas sobre minha vida no galinheiro, só pra você entender o quão merda ela está neste momento.

Vamos começar com a galinha gorda. Ela ainda é prefeita e, pasmem, tá fazendo um bom mandato. Ninguém quis o impeachment, ninguém delatou esquemas de corrupção e ninguém tramou por baixo dos panos pra tomar o poder. E olha que essas galinhas aqui adoram seguir uma modinha. Em outras palavras, ela queimou minha língua. Fiz campanha contra o ano inteiro, mas ninguém quis me ouviu. Agora ninguém mais olha na minha cara. Virei persona non grata. Tá uma merda.

O galo velho caquético ainda conversa comigo, mas isso não é uma vantagem. Mas até ele tá sendo obrigado. Sem falar que ele tá meio senil. Aliás, meio é eufemismo. Ele tá completamente senil. Outro dia ele me deu a mesma aula três vezes seguidas e, quando fui reclamar, me chamou de louco. Um absurdo! Louco é aquele filho da puta. Aulas sobre abate de frangos não fazem parte do meu treinamento pra ser um Frango Garanhão Reprodutor. Aquele velho tá pirado, deviam internar ele em uma clínica e deixar ele morrer sozinho por lá.

Pra completar, meu único amigo deste lugar decidiu fazer uma viagem sem data pra voltar. O Galo Sarado um dia acordou e disse: "esse lugar tá hétero demais". E foi embora. Isso mesmo, foi embora. Arrumou a mala e partiu rumo à praia! Aquele arrombado me deixou sozinho pra poder sair e "aproveitar o verão". Sei bem que tipo de "verão" ele tá aproveitando. Ele tá viajando há mais de três semanas e quase não parou pra conversar comigo, pra ouvir meus problemas. Fica o dia inteiro na praia, tirando foto sem camisa e postando no Snapchat. Tá ocupado demais pros amigos. A gente nem tinha terminado nosso campeonato de Fifa, sabe.

Enquanto isso, trabalho sem parar. Continuo obrigado a acordar todo dia antes das cinco da madrugada, subir no telhado e cantar pra acordar esse bando de galinhas preguiçosas. As aulas também continuam, só vão terminar quando aquele velho morrer. Nem te falei nada sobre a minha vida sexual porque, convenhamos, não tô a fim de te fazer chorar com essa carta. E o desgraçado do feriado de Natal ainda caiu em um final de semana!

Enfim, queria apenas desejar um com trabalho amanhã e dizer que estou de olho no senhor. Fui amistoso dessa vez, mas não vou facilitar sua vida pra sempre. Se você vacilar de novo comigo, arranco essa sua barba branca com minhas próprias asas. E vai doer pra caralho, eu prometo.

São os votos carinhosos do Frango!

P.S.: Me arrependi de não ter pedido nada. Traz uns jogos de Play 4, uma viagem pra Porto de Galinhas ou um pokémon de verdade. Aí sim estamos combinados.

16 de ago de 2016

Reflexões infantis de um frango

Não existem vantagens em ser um frango. É uma fase de transição complicada entre ser pintinho e ser galo. A crista não tá totalmente em pé, o cacarejo falha de vez em quando, o porte não é dos melhores. Você ainda é um moleque e, ao mesmo tempo, já tem grandes responsabilidades. Mesmo sem os grandes poderes, é preciso enfrentar isso.

No fim, você é um mero nada. Ninguém se lembra da sua existência. Em vez de fazer o seu papel de frango garanhão reprodutor, você ganha o galo velho caquético pra te dar aulas. De quebra, vê todas as datas comemorativas passarem em branco. Não ganho nada no dia dos pais porque ainda não tenho idade para isso; o dia das mães é impossibilitado pela biologia; dia dos namorados não dá certo porque sou um frango; dia dos avós, dia da secretária, emoday, dia do sexo. Tudo passa sem comemoração quando se é um frango.

O mais frustrante de todos é o dia das crianças. Tenho muita inveja daqueles pintinhos pulando alegres com seus brinquedinhos novos. E eu? Não ganhei nem um abraço, quem me dera um presente. Quase deixei minha crista tampar o olho e virei emo. Ainda por cima o feriado caiu num domingo. DO-MIN-GO!

Domingo é dia de ser feliz, sair do galinheiro, passear, assistir à Fórmula 1 de manhã, ver as galinhas gostosas andando sensualmente pelo mato. Nada disso deu certo. A corrida foi de madrugada, acordei muito cedo por causa das intermináveis aulas daquele velho, não recebi nem um sorriso de “feliz dia das crianças”, fiquei mal-humorado o dia inteiro, não saí do poleiro e, como consequência, não vi as galinhas gostosas.

Ou seja, mais um dia perdido na minha vida. Odeio perder domingos à toa. Fico mal a semana inteira. Aliás, é mal ou mau? Deixa para lá, depois olho no dicionário. O que me deixou mais mal(u) foi ver aqueles pintinhos excitados, correndo e pulando de um lado para o outro, comendo doces a vontade, fazendo o que queriam, pelo menos por um dia inteiro.

É inveja mesmo, já admiti antes e volto a falar (e vou fazer em caixa alta para deixar bem claro): INVEJA! Espero que todos eles morram de uma forma lenta e dolorosa. Só espero que o natal chegue rápido. Pelo menos é uma data universal, na qual todos ganham alguma coisa. Só espero que eu não me decepcione. De novo.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa crônica tem uma história legal por trás, já que partiu de um grupo de escrita criativa. Ele funcionou apenas uma vez, mas foi incrível. Nós sorteávamos um tema e uma forma de escrever e, a partir disso, nos virávamos. Para mim caiu "crônica" e "humor negro". É baseado em uma piada e, por favor, não queiram me bater depois de ler.

15 de ago de 2016

Reflexões estressadas de um frango

Chega! Não dá mais pra aguentar esse galo velho caquético. Sonho com o dia em que ele vai ser comido com quiabo e angu. Vão disputar um pedaço daquele peito magrelo, chupar o pescoço até sugar todo o caldinho. E ele enfim vai sumir da minha vida. Se eu precisar assistir mais uma aula sobre “Como cantar no tom e na hora correta”, “Métodos de equilíbrio em poleiros” ou “Como prevenir pintinhos” vou preferir a morte.

Apesar de serem uma bosta, as aulas nem foram o pior momento da minha semana. Depois de muito tempo sumida, a galinha gorda com celulite decidiu fazer um retorno triunfal. Pensei até que ela tinha sido comida, mas pelo jeito não foi. O granjeiro deve ter ficado com nojo, certeza. Ela apareceu no meu poleiro hoje de manhã e puxou assunto. Eu tava meio sonâmbulo ainda, porra. Não me assusta desse jeito. No mínimo ela acha que sou a fim dela. Devo ter pregado chiclete na cruz pra suportar uma galinha tão feia na minha vida!

E olha que nem ligo para aparências. Ela pode ser gorda, ser cheia de celulite, ter umas rugas em lugares que nem imaginei que pudessem existir rugas. O problema é que ela é insuportável. Sou o único frango da granja em idade para procriar, então sobra para quem? Para quem? Nem precisa responder.

Para completar essa semana projetada pelo capeta, uma das aulas contou com a participação de quem? Também não precisa responder. Era uma prática sobre a dança do acasalamento. Tínhamos visto a teoria, agora era a vez de testar pela primeira vez. Então aquele velho me traz a gorda. Não quero fazer a dança do acasalamento com ela. Depois não me reclamem que não sei fazer direito, olhem com quem foi minha iniciação.

É sério, não aguento mais. Quero mandar esses dois direto pro inferno. Passar um tempo dentro de uma televisão de cachorro para ver como é bom. Juro que não é preconceito ou algo do gênero. Não é! É pós-conceito. Desafio qualquer um a se encantar pelo velho ou por aquela gorda. Ou melhor, queria ver alguém precisar fazer a dança do acasalamento na presença de um dos dois.

Para piorar a semana, só faltava chover. Não contente em acabar com o restinho do meu humor, São Pedro mandou granizo. Quando começou o barulho no telhado, um pintinho gritou: “Está chovendo granito”. Na hora até ri, mas agora acredito nele. As pedras de gelo foram tão grandes e pesadas que pareciam granito.

Para aumentar meu bom humor, caiu uma pedra em cima do telhado e fez um furo no teto do meu poleiro. Agora tem uma goteira infernal em cima da minha cama, vou precisar mudar de lugar. Espero que tenha um lugar bom para dormir.

Deixa eu ver onde tem um lugar vazio. Tem um ninho só com uma galinha por ali. Vou me dar bem essa noite. Passar o tempo todo grudado com uma galinha, vai ser ótimo! É só fazer ela dar uma chegadinha para lá...

Ah não! É perseguição, não tem condições. Por que o último lugar para dormir é ao lado da gorda?


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Aos poucos a personalidade do frango foi se moldando e ele ganhou alguns contornos mais nítidos para mim. O primeiro, ele detesta o galo velho. Segundo, ele também detesta a galinha gorda. Lógico, tem muito de machismo arraigado aí, que tentei aliviar com o passar do tempo. O Frango é uma sátira, uma piada. E ele sempre se dá mal. Isso atenua ele.

14 de ago de 2016

Reflexões em um pseudo-feriado

Ser o Frango Garanhão Reprodutor da granja é o trabalho dos sonhos pra muitos pintinhos. Comer, ter um poleiro bom e transar. Precisa de mais? A teoria é linda, eu sei, mas a prática é bem bosta. Acredita em mim, sei do que tô falando. Dentre as diversas torturas diárias, acordar cedo em pleno domingo ocupa um lugar especial. A única justificativa plausível pra se acordar cedo no domingo é ter uma arma apontada pra cabeça. Até um apocalipse zumbi pode esperar a sonequinha pra acontecer.

Se não fosse ruim o suficiente, acordo cedo pra ter aulas com aquele galo velho caquético. Ele me ensina as artes e ofícios de "como ser um galo de sucesso". Parece nome de livro de auto-ajuda, mas é uma matéria. Pensando bem, era melhor ele escrever um livro e me mandar ler. Ia ser melhor. Odeio livros de auto-ajuda, mas odeio aquele velho e odeio ainda mais acordar domingo de madrugada.

Até porque é nesse horário que passa Fórmula 1. É uma tradição sagrada, porra. Assisto desde que sou pintinho e querem me dar trabalho no mesmo horário dela? Quando a corrida é de manhã, faço até o esforço de levantar cedo e assistir. Mas se a corrida for à tarde... ah, só me acordem na hora dela começar.

Mas não, aquele velho maldito vem me sacudir às 3 da manhã e atrapalha meus planos. Sabe aquela expressão “levantar com as galinhas”? Ela só funciona quando as levo pro meu poleiro e passamos a noite juntos. Caso contrário, não dá certo. Acordo antes das galinhas porque, pelo jeito, minha função é cantar pra acordá-las. TO-DOS-OS-DI-AS. Puta que pariu! Será que elas não conhecem a maravilhosa tecnologia do despertador?

Minha única esperança é aquele velhote perceber meu mau humor e me liberar mais cedo. O que é impossível, ele continua com um falatório interminável na minha cabeça. Inferno, o povo tá acordando só agora e eu aqui, com essas olheiras enormes de quem não dormiu direito e um humor ácido ao extremo.

Pra completar, a aula é no telhado. De lá consigo ver toda a movimentação da granja, com as galinhas saindo às ruas usando verde-amarelo, pendurando bandeirinhas do Brasil por todos os lugares... ué, estranho. Só tem jogo às 10 da noite, por que esse povo tá assim? A partida é agora e não fiquei sabendo? Droga, tô perdendo futebol! Aquele moribundo vai me prender o dia inteiro, tô até vendo. Já vou perder a corrida, mas perder o jogo é humilhação.

"Pare de olhar para a parada, se concentra na aula!"

Parada? Que parada? Vai ter parada gay e não me convidaram? Parei por um tempo até o raciocínio funcionar direito. "Parada... parada de sete de setembro? Mas sete de setembro não é feriado?

Merda. Odeio feriado no final de semana. Esse só o primeiro de muitos nesse semestre.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Essa foi uma crônica do Frango escrita para o sete de setembro. Ainda estava procurando a voz do personagem, é a primeira vez que as aulas sobre "como ser um galo" aparecem, coisa que se repetiria muitas vezes no futuro.

13 de ago de 2016

Reflexões olímpicas de um frango

Dia 08/08/08, às 08:08. Um simbolismo brega, o suficiente para fazer a granja inteira parar. Parecia feriado. E quando falo em parar, não tô brincando. As galinhas pararam de fofocar, o galo velho caquético parou de me encher o saco e o granjeiro até se esqueceu de dar comida pra gente. COMIDA! Como aquele filho da puta se esquece da comida? A festa de abertura estava até bonita, eu sei, mas se esquecer da gente é demais. Desgraçado!

Em meio aos roncos do meu estômago, reparei uma coisa curiosa: era a mesma pessoa em todos os papéis durante a cerimônia. Podem tentar me provar o contrário, vou manter minha ideia. Até porque não sei distinguir muito bem um chinês do outro. São todos iguais. Olhos puxados, pele amarela com falta de sol e cabelos pretos escorridos. Quando aqueles chineses colocaram as medalhas nos pescoços e acenaram, juro que fiquei tonto. Parecia clonagem. Deviam prender o Albieri, os planos dele saíram do controle. São todos idênticos. Depois os frangos é que são todos iguais.

E o pior, nem uma franguinha oriental bonita tinha. Passei a noite em claro por nada. Não só essa, mas todas as noites de competição. Em compensação, dormi durante o dia inteiro. Aliás, meu relógio biológico ainda não voltou ao normal. A expressão “levantar com as galinhas” nunca foi tão errada. Eu dormia junto com o nascer do sol e acordava para comer. Então dormia de novo, em um ciclo infinito de pura irresponsabilidade. Nem minha função de acordar o galinheiro eu cumpri.

Só voltava para a realidade quando começava mais uma madrugada olímpica. Como a granja é chique, tem SporTV1, SporTV2, SporTV3, SporTV Premium e SporTV Mega-ultra-hiper-max-excelente. Assim eu podia ver todos os jogos, sem exceção. Sabe aqueles esportes tipo “tiro deitado com carabina invertida acionada por uma cusparada a distância”? Pois é, esses eram os mais legais. Eu não sabia as regras, o narrador também não. Ficávamos eu, a televisão e o narrador calados. Reparei que valia medalha só quando já estavam todos no pódio.

Apesar disso, valeu a pena trocar meus horários. Posso dizer que vi um tal de Michael Phelps cair nas piscinas. Tenho medo dele, parece mais um tubarão do que uma pessoa. Também assisti ao tênis e tive certeza que Rafael Nadal é O cara. E as mulheres da ginástica artística? Que coisa impressionante. Minha máxima flexibilidade é esticar a asa e pegar o controle remoto. E evito ao máximo fazer isso para não me contundir. Mas gostei de verdade foi do futebol feminino. Não porque o Brasil levou um créu dos Estados Unidos na final, mas porque elas enfrentaram as norueguesas. Queria um time daqueles trabalhando aqui no galinheiro, acariciando minhas penas e lustrando meu bico.

Calma, me distraí. Qual era o assunto mesmo? Ah, o Brasil. Aliás, nem sei para que eu citei o Brasil nessa história. Ganhou três medalhas de ouro inesperadas? Bom para ele. Uma do menino nadador que não lembro o nome, que só ganhou o ouro porque o Phelps não competia nessa prova. Uma da Maurren Maggi no salto em distância (brilhante conquista individual, sem apoio nenhum do Brasil) e a outra foi com o time de vôlei feminino (finalmente!).

Quer saber de uma coisa? Os últimos quinze dias foram bons. Não dormi direito, não fiz nada de útil, mas assisti às Olimpíadas. Quer coisa melhor do que ficar à toa e ver televisão o dia todo? Tudo bem que nosso país ficou atrás de Belarus no quadro de medalhas, mas como nem sei onde é Belarus, vou ficar quieto.

Agora tenho que voltar aos meus afazeres normais. Não quero, vou emendar com as paralimpíadas e quero ver quem vai me proibir. Espero sinceramente que o granjeiro não tente me comer depois desse mês sem fazer nada.


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Vou desativar meu antigo blog, o "Memórias de um frango". Para isso, vou resgatar as crônicas que estavam postadas lá, dar uma repaginada e trazer para cá. Publicada ao fim das Olimpíadas de Pequim 2008, foi a primeira que escrevi como o Frango desde Reflexões de um frango. Foi o início de quase 100 crônicas com o personagem e que pretendo manter por um bom tempo ainda.

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